Cultura perdida

Hoje no almoço entabulamos conversa animada a respeito de algumas guloseimas que existiam até os anos 80 do século passado e hoje desapareceram. O último a sumir foi o rolete de cana, que até meu filho caçula ainda se lembra. E hoje não se acha mais nas praças, na rua. Estamos perdendo muitos hábitos...

Uma delícia aguardar a hora de ir pra escola, porque ao chegar no ponto de ônibus das Mercês, dava de cara com seo Zé, com seu chapéu preto, calça cáqui arregaçada até o meio da canela, camisa de tergal, com seu tabuleiro de flande em cima do cavalete de madeira com esteios de pneu. Era hora do quebra-queixo delicioso, que seo Zé cortava com faca amolada, de acordo com o valor que pedíamos, a partir de Cr$ 0,50 (cinquenta centavos de cruzeiro). Eu ia saboreando enquanto escondia o pedaço restante fechado na mão, porque nós, as meninas do Instituto Feminino da Bahia, éramos proibidas de comer qualquer coisa ou até mastigar chicletes na rua. Acreditam isso? Daí que o sabor era melhor ainda.

Outra delícia era o bolinho de arroz, com leite de côco. Esse era o meu preferido, a todo o resto. Era vendido por Iaiá, uma senhora bem idosa, que só vestia branco, assim como sandália, lenço de cabeça, bolsinha onde guardava dinheiro. Tudo igualmente alvo. Ela só vendia de terça a quinta-feira. Não trabalhava às segundas, em respeito a Omolu e às sextas-feiras, em respeito a Oxalá.

Vendia debaixo de uma mangueira da Av. Sete de Setembro, na altura do Rosário, um pouco mais a diante do número 183, palacete residência de meu tio-avô Dr. Raphael de Menezes Silva- catedrático de anatomia da UFBA; major-médico do Exército e político. Iaiá ficava de pé, ao lado do seu tabuleiro envidraçado, com os bolinhos à vista, branquinhos e deliciosos. Um dia ela não veio mais e eu jamais, até hoje, encontrei alguém que vendesse bolinho de arroz ou me desse a receita. Jamais voltei a ver Iaiá.

Outras iguarias vendidas nas ruas do centro de Salvador eram Lelê, acaçá doce, acaçá azedo e acaçá de milho. Eu aguardava os “fregueses”, porque mainha deixava o trocado para a gente comprar merenda. Ela dizia que essas iguarias alimentavam bem e eram feitas por pessoas que não tinham acesso a empregos. Era uma forma de prestigiarmos o povo preto da nossa terra, que resistia mantendo sua dignidade ao vender essas e outras iguarias aprendidas com os ancestrais africanos.  Vitamina feita com acaçá de milho era rotina, pela manhã, antes de sairmos para a escola. Já o acaçá doce nós levávamos para merendar no recreio.

Não podemos esquecer o vendedor de tabocas e, ainda, as vendedoras de beijus de tapioca e de carimã, enrolados na palha de bananeira. Delícias que poucos de nós ainda temos acesso. Claro que na feira de São Joaquim e na Feira das Sete Portas, em Salvador, e na Central de Abastecimento, em Ilhéus, com uma boa garimpagem, conseguimos alguns desses beijus.

E tem muito mais... quem não lembra de alferes? O tabuleiro trazia todos eles enrolados em papel manteiga, finos, espessura de um lápis e o desafio de conseguirmos comer, sem perder as restaurações dos dentes, além de ter que ficar enrolando pra cortar o fio que  surgia, como se fosse chiclete.

Sem saber como e porque, perdemos quase tudo isso. Já não existem os ambulantes com a maioria dessas iguarias e nós não aprendemos a fazê-las, porque os descendentes de africanos guardavam suas receitas na memória, em segredo, pois mais que guloseimas, elas são iguarias sagradas dos  adeptos do Candomblé.

A autora Elza Ramos é publicitária, pedagoga e ialorixá